top of page

Grupo Espacolacaniano

Público·236 membros

A Cruz, o Ritual e o TOC: Entre Vitória e Prisão


Por Leonardo Paixão

Psicanalista

22/08/2025


Um analisante me perguntou se fazer o sinal da cruz era importante para encerrar um ato ritual ligado ao seu TOC.


“Por que a cruz?”, perguntei.

“Por respeito a Deus e a Jesus”, respondeu.

“E o que ela representa?”

“Vitória.”


A partir daí, a sessão ganhou contornos interessantes. Se a cruz é vitória, poderia o TOC ser também uma cruz, mas no sentido de fardo? Ele refletiu e disse: “O maior inimigo que tenho sou eu mesmo.”


O ponto de deslocamento estava dado: vencer-se a si mesmo. Mas como? Ele mesmo respondeu: “Tirar o TOC.” E acrescentou: “Só não fazer mais. Sem precisar orar. Mas eu prefiro orar.”


Foi quando lancei outra provocação: “E se manter-se nessa oração não seria também uma cruz — agora no sentido de prisão?”


Ele silenciou. Mas um silêncio cheio de elaboração.


Entre o Sagrado e o Sintoma


No TOC, o ritual é sempre uma espécie de oração compulsória. Mesmo quando ligado ao sagrado, ele pode tanto abrir quanto fechar. Pode ser vitória ou condenação. Pode ser fé ou cárcere.


A cruz, trazida por ele, condensava os dois sentidos: triunfo e sofrimento. Vitória e peso. E foi nesse entremeio que a análise se sustentou.


A questão que ficou não foi: “devo ou não orar?” Mas outra, mais radical: quando um gesto de fé se torna prisão? E quando o mesmo gesto pode ser libertador?


A psicanálise, nesse ponto, não dá resposta. Apenas sustenta o enigma. O silêncio dele no final foi justamente a marca de que algo, no sintoma, vacilou. E é nesse vacilo que o sujeito pode começar a se reinventar.


Fica a reflexão: quantas das nossas “orações” diárias — não só religiosas — não passam de rituais automáticos que, em vez de libertar, nos aprisionam ainda mais?

12 visualizações
bottom of page