Psicanálise Lacaniana: formalizações, grafos e esquemas
- Jéssica Leite Barbosa
- 13 de mai.
- 10 min de leitura
Jacques lacan e o grafo do desejo desde Nelson Rodrigues
Lacan, grande leitor de Freud, ao avançar nos estudos psicanalíticos, utilizou diversos saberes para a condução de seu ensino. Aproximou-se da linguística, filosofia, antropologia, literatura e da matemática. Assim, em seu ensino, encontramos a esquematização de alguns conceitos e suas relações sob a forma de grafos, esquemas e topologias. Um dos grafos fundamentais do ensino lacaniano, situado na chamada primeira clínica, é o Grafo do Desejo. Nele, é possível visualizar uma sessão de análise, a constituição do sujeito e as estruturas da neurose, psicose e perversão.
Para o analista, o grafo torna-se um suporte para o estudo da psicanálise e para as articulações possíveis diante dos conceitos nele contidos. Considerando a função do analista em uma sessão de análise, no final do grafo encontramos uma pergunta que aponta para o que há de mais valioso para o sujeito e que será dirigida ao analisando diante de suas questões: Che vuoi? Que queres? Essa será a pergunta do analista desde a condução das entrevistas preliminares para a formulação de uma questão de análise, sendo mantida ao longo de todo o processo analítico.
Para ilustrarmos a relação dialética entre os pontos, vértices e arestas, escolhemos a articulação possível em uma sessão de análise. Para isso, utilizaremos a literatura e o teatro de Nelson Rodrigues, tomando sua peça “Otto Lara Rezende... Bonitinha, mas Ordinária” e destacando o personagem Edgar como nosso analisando.
A peça se inicia com Edgar em um bar, bebendo com seu colega de trabalho, Peixoto, que lhe faz uma pergunta: o que ele considera um mau caráter? Sem saber responder, Peixoto diz que está em busca de um mau caráter e emenda com mais uma questão: se Edgar é ambicioso e deseja subir na vida. Edgar afirma que sim e explica que se considera ambicioso por conta de uma frase do jornalista Otto Lara Rezende, que diz: “O mineiro só é solidário no câncer”. A partir do momento em que leu essa frase, ela permaneceu dentro dele; a frase o corrói. Edgar compreende que não é apenas o mineiro, na verdade, trata-se do ser humano. Com isso, autoriza-se a ser um mau caráter, afinal, para que pudor ou escrúpulos, se o homem só é solidário no câncer?
E Peixoto pergunta do que Edgar seria capaz de fazer para se tornar rico, e ele responde que, com a frase de Otto no bolso, faria de tudo. Assim, Peixoto propõe que Edgar se case com uma moça de família rica, cuja família o encarregou de procurar um noivo para ela. No dia seguinte, Peixoto conversa com Edgar, ambos sóbrios, e explica que o motivo do casamento se deve a um acidente que a moça sofreu: um estupro coletivo. Para apagar a situação, a família deseja que a filha se case como se fosse virgem. Edgar fica às voltas com a proposta, tanto por a moça não o conhecer quanto pelo interesse que tem em sua vizinha. No entanto, Peixoto afirma que ela o escolheu; assim, Edgar aceita o casamento.
Em uma cena seguinte, Edgar oferece à vizinha, Ritinha, uma carona até o trabalho. Ritinha diz ser professora em um colégio de freiras, embora na verdade seja prostituta. No caminho, Edgar força-lhe um beijo e, em seguida, insinua que, se quisesse, poderia fazer com ela o mesmo que fizeram com a moça de família rica. Ritinha se assusta e suplica que precisa chegar logo ao trabalho. Edgar, por sua vez, também se impressiona com a reação dela e comenta que a frase de Otto permanece em sua mente, levando-o a pensar que, por causa dela, pode ser capaz de fazer o que quiser com Ritinha. Por fim, declara que gosta dela.
Após essa cena, Edgar encontra-se com a família da moça com quem irá se casar, Maria Cecília. Ele conhece seu futuro sogro, Werneck, e sua sogra, Lígia. A sogra insiste em afirmar que a filha é inocente e pura, enquanto Werneck humilha Edgar ao dizer que ele precisa se sentir rebaixado diante de Maria Cecília, já que a família deles tem dinheiro e ele é apenas um ex-contínuo. Diante das humilhações, Edgar se revolta e decide que não irá mais se casar com Maria Cecília.
Durante a peça, temos acesso ao contexto do personagem Edgar, um ex-contínuo que mora em um apartamento simples e precário com sua mãe. A única fonte de renda da família, é o baixo salário de Edgar. Sua mãe se empolga com a possibilidade do filho se casar com a Maria Cecília, pois terão chances de ter uma vida melhor financeiramente.
Após a cena na casa de Werneck, Maria Cecília procura Edgar pessoalmente e pede que ele converse novamente com seu pai, e Edgar aceita. Em conversa com Werneck, Edgar afirma que não quer as regalias que passou a receber na empresa, desde que foi escolhido como noivo, deixaram de lhe passar tarefas e que isso o faz se sentir mal. Ele diz que não quer se vender ao sogro, como Peixoto se vendeu à família.
Werneck responde que, no Brasil, todo mundo é Peixoto e diz que fará um teste com Edgar: dará um cheque de cinco milhões de cruzeiros, e, se ele tiver caráter rasgará o cheque; caso contrário, ele é um Peixoto.
Dado o contexto inicial da peça, iniciaremos pela parte inferior do grafo, que se refere à constituição do sujeito: o estádio do espelho, de forma resumida. Trata-se do eu em sua relação com a imagem, momento em que o sujeito se reconhece e afirma: “essa imagem me representa”.

Iniciamos com o símbolo Δ (Delta), que representa a criança mítica antes de entrar na linguagem, ainda que, de fato, ela já esteja na linguagem, uma vez que é falada. O Δ passará por i(a), o eu ideal, encontrando-se então com o A (Grande Outro), que representa o campo simbólico, o tesouro dos significantes que nomeia e inscreve o $ (sujeito barrado).
O sujeito barrado ($) pode ser localizado no personagem Edgar, constituído pela linguagem (A), passando por “m”, designado como “eu”, a imagem que o sujeito tem de si, e terminando em I(A), o Ideal do Eu. Na obra, não temos acesso detalhado à constituição subjetiva de Edgar desde a infância; no entanto, podemos usar como referência os ideais que o estruturam e que aparecem na peça, tais como: casar-se com uma moça de “família”, não se envolver com uma prostituta devido à moralidade social, ser honesto, conquistar sucesso financeiro e proporcionar melhores condições de vida para a mãe, entre outros.

Nesta parte do grafo temos s(A) (posição do sintoma), sendo o sintoma o dito do Outro, no grafo indicado como “A”. E s(A) em direção a “S”, sendo a representação do significante. É da significação produzida pelo significante fundado no Outro que o sujeito é afetado e perturbado, produzindo o sintoma, pois a significação está diretamente ligada à função do campo do Outro. A seta finaliza em “voz”, isto é, o inconsciente enquanto voz do Grande Outro.
Na peça, vemos que, a partir da metáfora “o mineiro só é solidário no câncer”, vinda do Grande Outro e transmitida pelo pequeno outro, Otto Lara Resende, a significação dessa frase reposiciona Edgar em sua condição de sujeito desejante, colocando-o em questão quanto ao próprio posicionamento. A frase ecoa em sua mente, tornando-se um sintoma, formulado como: “Será que tudo é permitido?”.
O ponto de virada da peça se dá quando o Werneck coloca Edgar em “questão” em relação a frase do Otto. Nas cenas seguintes Edgar encontra-se com Peixoto que diz que no Brasil não existe uma pessoa que não se tornará canalha um dia, todos em algum momento, se vendem; todo mundo tem o seu preço. Edgar nega e diz acreditar na pureza de Maria Cecília e de sua família, mas Peixoto sinaliza que, em algum momento, toda família apodrece e aquela já estava apodrecendo.
Em seguida, Edgar encontra-se novamente com Ritinha, que conta ter aceitado ser violada pelo chefe de sua mãe para que ela não fosse demitida e, a partir disso, começou a se prostituir. Assim, Edgar se dá conta da frase de Otto e conclui que “tudo é a frase dele”, ou seja, os acontecimentos se dão porque as pessoas interpretam que “tudo é permitido”. E, se ele não rasgar o cheque, é por causa da frase de Otto. Diz então para si mesmo, escancarando seu sintoma: “... a frase do Otto é que é o câncer!”.
Peixoto leva Edgar para conhecer as festas promovidas pelo sogro. Werneck tem ciência de que Edgar está vendo tudo e prepara um crime sexual, uma curra, ao vivo, para seus convidados. Edgar questiona Peixoto sobre o que eles poderiam fazer para impedir que a curra aconteça, e Peixoto responde: “É com essa família que você vai se casar”, e emenda que nada poderão fazer, apenas assistir.
As últimas cenas da peça mostram a mãe de Edgar pedindo que o filho não rasgue o cheque, pois ela quer o dinheiro. Peixoto confessa que Maria Cecília que pediu para que ele armasse a cena de curra, pois teve essa fantasia após ler, a notícia no jornal de uma doméstica que fora currada por cinco homens negros. Assim, Peixoto oferece a Edgar a chance de escapar daquela família ao matar Maria Cecília e, em seguida, tirar a própria vida.
A peça termina com Edgard encontrando-se com Ritinha e dizendo que não é mais noivo e que agora se tornou um novo homem. Ele se autoriza a ficar com Ritinha, apesar de ela ser prostituta, queima o cheque de Werneck e declara: “Vamos começar sem um tostão. Sem um tostão. E se for preciso, um dia, você beberá água da sarjeta. Comigo. Nós apanharemos água com as duas mãos. Assim. E beberemos água da sarjeta. Entendeu? Agora olha.” A cena final mostra Edgard apontando para o sol e admirando o amanhecer sobre o mar: “O sol! Eu não sabia que o sol era assim! O Sol!”
Podemos ler três cenas da peça como uma relação entre analista e analisante, sendo a função do analista implicar o sujeito em seu próprio dito, abrindo a cadeia de significantes. A primeira cena ocorre quando Peixoto pergunta a Edgar: “Você é mau-caráter?”, abrindo espaço para a fantasia de Edgar em referência à frase de Otto “o mineiro só é solidário no câncer” que convoca sua fantasia acerca do que seria um “mau-caráter”, seguida da pergunta: “Do que você é capaz de fazer para ter dinheiro?”

Podemos utilizar essa parte do grafo para tratar da relação entre analista e analisante: o analisante que vai à sessão de análise e fala de seu sintoma (sinto mal), atravessado por um significante “S”, fundado na relação com o Outro (A), que o direciona ao analista.
A segunda cena é quando Werneck rompe com a narrativa de Edgar e o coloca em “questão” diante de seu próprio dito “não sou igual ao Peixoto” e faz o teste do cheque. O analista devolve para o sujeito o seu dito; assim, ao manejar os significantes, manejamos o sintoma. Ou seja, Werneck implica Edgar em seu próprio sintoma. A terceira cena ocorre quando Peixoto escancara a verdade sobre a família de Werneck “toda família apodrece” e, em seguida, revela a curra a pedido da Maria Cecília, perguntando “Tem certeza de que é essa família que você quer entrar?” Implicando o sujeito barrado em sua própria questão: queres entrar para essa família?
Na peça, temos a fantasia do Edgar em torno da frase que o atormenta “o mineiro é solidário no câncer”. A fantasia de que “tudo é permitido” leva o personagem a tentar forçar um beijo e uma relação sexual com Ritinha. Outra fantasia apresentada é da família ideal e bem-sucedida, bem como a possibilidade de fazer parte dela e, assim, alcançar uma nova condição de vida. No grafo, podemos visualizar a fantasia através do matema da fantasia ($ <> a), sendo o sujeito ($) em relação com seus objetos parciais. Ambas as fantasias o direcionam para seu desejo, localizado em “d” no grafo, o desejo sendo, por excelência, uma falta que se reproduz. A falta em Edgar aparece marcada por suas questões financeiras e pelo anseio de sucesso; o desejo sem limites de “fazer o que quiser”. Todo desejo é fundado na fantasia, estando além da necessidade e organizado por questões culturais. Bem demonstrado como ideal cultural uma família tradicional, financeiramente bem-sucedida e casamentos ideais.

Porém, as fantasias de Edgar fracassam ao perceber que o preço a ser pago para entrar para a família de Werneck implica submeter-se às suas regras, tornar-se conivente com práticas violentas e suportar a hipocrisia da família tradicional.

No último andar do grafo temos a instância do gozo, que, na peça, pode ser traduzida pela frase que se repete “O mineiro só é solidário no câncer”. O gozo está além do prazer. Ou seja, o personagem usufrui da frase de Otto para flertar com a possibilidade de ter atitudes consideradas “imorais”; porém, não as coloca em ato. Ele se satisfaz em imaginar as inúmeras possibilidades que a frase lhe permitiria e a repete incessantemente, mas essa repetição não o conduz a nada.
No grafo, é possível localizar, pela linha vermelha, a composição do gozo articulada aos matemas de S(A), significante da falta no campo do Outro, e ao matema da pulsão ($<>D), que marca a relação entre sujeito e demanda. O gozo, assim, é composto pela falta e pela pulsão. Nos processos de satisfação, sempre há uma falta que retorna, e essa repetição diz respeito a uma permanente insatisfação. O gozo de Edgar se depara com a castração, localizada ao final da linha vermelha do grafo, quando ele é colocado em questão: para obter sucesso financeiro e colocar em ato suas imoralidades, há um preço a pagar, vender-se à família de Werneck e não rasgar o cheque.
Ao final da peça, é possível ver Edgar atravessando sua fantasia e o gozo sustentado pela frase de Otto ao rasgar o cheque. Ou seja, existe um preço a ser pago para poder desejar, se colocar diante da falta. A frase de Otto o colocava em uma suposta completude, como se “tudo fosse possível, afinal, não há limites”. Ao rasgar o cheque, Edgar se endereça ao que quer, assumindo a relação com Ritinha e reconhecendo o risco de, por ter deixado o dinheiro para trás, talvez precisar “tomar água da sarjeta”. Além disso, ao rasgar o cheque, ele abre espaço para a falta que funda a possibilidade de desejar, representada na peça pela cena final de contemplação do sol. Assim, o personagem pode finalmente se deparar com o Che vuoi? Que queres?
Com isso, a pretensão de articular o Grafo do Desejo com a peça de Nelson Rodrigues tem a intenção de apresentar uma possibilidade de leitura e articulação do grafo. É sabido que o estudo do grafo é complexo e comporta diversas possibilidades de interpretações, baseadas nas articulações entre vértices e arestas. Sendo assim, o estudo do grafo não se esgota, tampouco a análise da obra “Otto Lara Resende… Bonitinha, mas ordinária” enquanto possibilidade de articulação com os conceitos psicanalíticos de Freud a Lacan. Diante da análise realizada, como uma primeira e breve conclusão, o grafo se apresenta como uma estrutura que evidencia que o desejo se funda na falta. Assim, ficamos com a questão que o estudo do grafo nos interroga: como desejamos? Ou melhor, como cada um lida com sua falta?

