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O preço de uma análise: dinheiro, desejo e ética de Freud a Lacan

há 5 horas
10 min de leitura

Há uma pergunta que quase sempre chega antes de qualquer outra. Alguém sofre, hesita durante semanas ou meses, finalmente decide procurar um analista e, no primeiro contato, pergunta: quanto custa? A pergunta é justa e merece resposta. Mas a resposta da psicanálise costuma desconcertar quem está habituado à lógica dos serviços, porque o valor de uma análise não está dado de antemão. Ele é acertado no um a um, com cada pessoa, ao longo das entrevistas preliminares. Não há uma tabela fixa aplicada a todos, e isso não decorre de improviso ou de política comercial. Decorre de algo mais fundamental: na psicanálise, o dinheiro não é um elemento externo ao tratamento, mas parte dele. Como escreveu Cláudia Mascarenhas Fernandes, interrogar quanto custa uma análise já é afirmar que uma análise custa. A questão, então, é compreender o que se paga, por que se paga e por que esse preço só pode ser decidido caso a caso.


Freud tratou do dinheiro desde muito cedo, e com uma franqueza pouco comum para a medicina de seu tempo. Em A interpretação dos sonhos (1900), ele relata o sonho de uma jovem cuja família se opunha à continuação do tratamento. No sonho, os parentes a proibiam de seguir em análise, e ela se lembrava de uma suposta promessa de Freud de atendê-la sem cobrar. Freud, no relato, responde: "Não posso fazer nenhuma concessão em questões de dinheiro". O detalhe mais interessante vem depois. Ao analisar o sonho, ele percebe que a fantasia de não ter de pagar pelo que se deseja atravessava toda a vida daquela paciente e estava no centro de seu sofrimento. O dinheiro, ali, não era um problema administrativo. Era um significante do sintoma. Décadas mais tarde, consultado sobre a melhor tradução francesa dessa frase, Lacan respondeu em carta de 1974: "Em questões de dinheiro, eu sou intratável". A radicalidade da fórmula indica que não se trata de rigidez pessoal, mas de uma posição ética diante daquilo que o dinheiro carrega para cada sujeito.


Retrato de Freud por Max Halberstadt (1921)
Retrato de Freud por Max Halberstadt (1921)

Em "Sobre o início do tratamento" (1913), um dos artigos sobre a técnica, Freud sistematiza essa posição. Ele observa que as pessoas civilizadas tratam o dinheiro da mesma forma que tratam a sexualidade, com vergonha, hipocrisia e incoerência, e que o analista deve, desde o início, falar dele com a mesma naturalidade com que pretende escutar a vida sexual do paciente. Freud admite que o dinheiro é meio de subsistência e de poder, mas insiste que poderosos fatores libidinais estão implicados na sua apreciação. Relata também que, durante cerca de dez anos, reservou uma ou duas horas diárias para tratamentos gratuitos, esperando encontrar menos resistência, e que o resultado foi o oposto: a gratuidade intensificava as resistências, retirando do tratamento parte de sua ligação com a realidade e parte da motivação para levá-lo até o fim. Ainda assim, no mesmo texto, Freud lamenta que a psicanálise permaneça inacessível aos pobres e reconhece que "nada na vida é tão caro quanto a doença e a estupidez". A frase é menos uma defesa de honorários altos do que uma afirmação sobre o custo do sintoma: o neurótico já paga, e paga caro, com sua repetição.


Para entender por que o dinheiro tem tanto peso na experiência analítica, é preciso ir ao texto de 1917, "As transformações da pulsão exemplificadas no erotismo anal". Ali Freud descreve uma série de equivalências simbólicas no inconsciente entre as fezes, a dádiva, o bebê, o pênis e o dinheiro. As fezes, diz ele, são o primeiro presente da criança, uma parte do próprio corpo que ela só entrega a quem ama. O interesse por esse primeiro objeto se desloca, ao longo da vida, para a dádiva e depois para o dinheiro. Isso significa que o dinheiro é um objeto pulsional: entra no circuito do desejo pela via da falta e da perda. O caso do Homem dos Ratos, de 1909, é exemplar. O paciente de Freud associava Ratten, ratos, a Raten, prestações, e chegava a contar o dinheiro dizendo "tantos florins, tantos ratos". Na neurose obsessiva desse homem, dívida, culpa e pagamento se entrelaçavam a ponto de paralisá-lo. Não é casual que, em alemão, a mesma palavra, Schuld, signifique dívida e culpa.


Se o percurso de Freud terminasse em 1913, teríamos a imagem de um médico liberal, ciente da função do dinheiro, mas resignado à exclusão dos que não podem pagar. A Primeira Guerra Mundial mudou isso. Em setembro de 1918, poucas semanas antes do armistício, Freud se dirigiu ao V Congresso Psicanalítico Internacional, em Budapeste, com uma conferência publicada em seguida como "Linhas de progresso na terapia psicanalítica". Nela, afirmou: "É possível prever que a consciência da sociedade irá se despertar, e fará com que se lembre de que o pobre deve ter tanto direito à assistência para sua mente quanto dispõe agora do auxílio oferecido pela cirurgia a fim de salvar a sua vida; de que as neuroses ameaçam a saúde pública não menos do que a tuberculose". E acrescentou que seriam criadas instituições e clínicas ambulatoriais nas quais o tratamento seria gratuito, prevendo que, de início, elas dependeriam da caridade privada e que caberia aos analistas adaptar a técnica às novas condições.


Congresso Psicanalítico Internacional
Congresso Psicanalítico Internacional

O chamado não ficou no papel. Em 1920, Max Eitingon fundou e financiou a Policlínica Psicanalítica de Berlim, que oferecia tratamento gratuito ou a preços baixos e se tornou o principal centro de formação da segunda geração de analistas, de Melanie Klein a Otto Fenichel. Em 1922, a Sociedade Psicanalítica de Viena abriu o Ambulatorium, que atendia adultos, crianças e famílias. Em As clínicas públicas de Freud, a historiadora Elizabeth Ann Danto documenta pelo menos doze clínicas cooperativas de saúde mental criadas entre 1920 e 1938, de Zagreb a Londres. Ela mostra que pelo menos um quinto do trabalho da primeira e da segunda gerações de psicanalistas era destinado a quem não podia pagar: estudantes, operários, empregadas domésticas, desempregados, professores de escolas públicas. Em Viena, tornou-se costume tácito que cada analista atendesse gratuitamente ao menos um quinto de seus pacientes. O próprio Freud assinava regularmente contribuições para o Ambulatorium. Danto observa que, em Budapeste, Freud abandonou explicitamente sua posição anterior de que o tratamento não seria valorizado se os honorários fossem baixos, e que até o fim da vida defendeu as clínicas gratuitas e os honorários flexíveis. Em 1925, o próprio Eitingon escrevia que os analistas já não podiam afirmar honestamente que o fato de o paciente pagar ou não tivesse influência decisiva no curso da análise.


Há aqui uma aparente contradição. O Freud de 1913 sustenta que o pagamento é indispensável ao tratamento; o Freud de 1918 defende clínicas gratuitas. A contradição se desfaz quando se percebe que, nos dois momentos, o que está em jogo não é o montante, mas a função. Freud nunca disse que a análise precisa ser cara. Disse que o dinheiro tem uma função no tratamento e que essa função precisa ser manejada. As clínicas públicas não aboliram essa função; deslocaram-na, mostrando que é possível sustentar a experiência analítica com honorários muito diferentes, desde que o analista não perca de vista o que o pagamento opera para cada sujeito. Como lembram Raoni Geraldo e Eliane Dias, no artigo "Pode uma análise prescindir do dinheiro?", a gratuidade absoluta não existe: sempre se paga com alguma coisa, seja qual for a forma de retribuição. A pergunta clínica não é se haverá pagamento, mas qual pagamento, para quem e em que medida.


Quatro vales (Erlagscheine) de Freud endossados ao Ambulatorium de Viena em 1931, 1932 e 1933, reproduzidos lado a lado, com carimbos e furos de arquivo (Sociedade e Instituto Psicanalíticos de Boston).
Quatro vales (Erlagscheine) de Freud endossados ao Ambulatorium de Viena em 1931, 1932 e 1933, reproduzidos lado a lado, com carimbos e furos de arquivo (Sociedade e Instituto Psicanalíticos de Boston).

Lacan levou essa questão a outro patamar. Em seu retorno a Freud, o dinheiro deixa de ser apenas um substituto simbólico das fezes e passa a ser pensado em relação ao objeto a, o objeto causa do desejo. No Seminário 10, A angústia (1962-1963), Lacan retoma a figura de Shylock, de O mercador de Veneza, e fala da "libra de carne": aquilo que o sujeito precisa ceder ao Outro para entrar na linguagem e advir como sujeito desejante. O seio, as fezes, o olhar, a voz são objetos que caem, que se perdem, e cuja perda funda o desejo. Pagar, na análise, é repetir esse gesto de cessão em outro registro. No Seminário 7, A ética da psicanálise (1959-1960), Lacan formula que há um preço a pagar para ter acesso ao desejo, e que esse preço se paga com gozo. Ninguém avança na via do desejo sem nada pagar. O pagamento da análise não é esse preço, mas é o lugar onde ele se torna legível.

O dinheiro, para Lacan, tem ainda uma propriedade singular: é "o significante mais aniquilador de toda significação", como ele escreve no "Seminário sobre A carta roubada". Precisamente por esvaziar o sentido, o dinheiro serve para cortar o laço imaginário. No Seminário 2, Lacan observa que o dinheiro não serve apenas para comprar objetos, mas para neutralizar algo mais comprometedor do que qualquer preço: dever alguma coisa a alguém. Uma análise sem pagamento corre o risco de se transformar em dívida de amor, em favor, em gratidão. O analisante passa a se perguntar o que o analista quer dele, se não lhe pede nada; ou supor que é atendido porque é amado. Em "A direção do tratamento" (1958), Lacan lembra que o analista nada tem a dar, e que nem mesmo esse nada ele dá de graça. Na mesma linha, em Televisão (1973), compara o analista ao santo que não faz caridade, mas "descaridade": ele se oferece como resto, como causa do desejo do outro, e não como benfeitor. O pagamento é o que impede que essa posição se confunda com bondade.


Colagem digital xlogravura O mercador de Veneza
Colagem digital xlogravura O mercador de Veneza

Elza Mendonça de Macedo, em capítulo do livro Psicanálise: a clínica do Real, organizado por Jorge Forbes, dá a essa ideia uma formulação precisa: o valor cobrado numa análise é uma intervenção do analista, é o próprio manejo analítico. Quem procura uma análise imagina comprar um saber sobre si mesmo; descobre, no percurso, que paga por algo que não tem nome pronto, que não se mede pelas leis do mercado e que só adquire consistência porque foi pago. O ato de pagar por algo cujo valor escapa ao cálculo de custo e benefício obriga o sujeito a se perguntar pelo que paga. É aí que se abre a passagem para a responsabilidade, no sentido psicanalítico do termo: implicar-se naquilo de que se queixa. Por isso Macedo insiste que a análise não pode ser "amaciada", e que a posição do analista não é a da generosidade nem a da compaixão, mas a de quem não poupa o analisante do encontro com o real.


É neste ponto que se compreende por que o valor de uma análise não cabe numa tabela. As tabelas de honorários, como a tabela de referência publicada pelo Conselho Federal de Psicologia e pela Fenapsi, cumprem uma função legítima para a categoria: oferecem parâmetros, protegem o exercício profissional contra a precarização, organizam a relação com convênios e instituições. Mas toda tabela opera pela lógica do universal. Ela pressupõe um procedimento padronizado, com duração e finalidade definidas, ao qual se atribui um preço válido para todos. A psicanálise parte do princípio inverso. Não há procedimento padronizado porque não há sujeito padronizado. O sintoma de cada um é uma solução singular, a relação de cada um com o dinheiro é singular, e o que uma pessoa pode ou não ceder também é. O mesmo valor que, para um, representa um esforço real, para outro é indiferente; e um pagamento indiferente não opera nada. Um preço fixo produziria, assim, dois efeitos contrários à ética analítica: excluiria quem não pode alcançá-lo e esvaziaria a função do pagamento para quem pode pagá-lo sem nenhum custo subjetivo.


A história institucional da psicanálise oferece um exemplo eloquente desse risco. Geraldo e Dias relatam que um centro de atendimento ligado a uma sociedade psicanalítica de São Paulo, criado com o propósito de responsabilidade social, estabelecia um valor mínimo mensal fixo; segundo os dados que citam, cerca de 70% das pessoas que o procuravam não podiam pagá-lo e eram encaminhadas a outros serviços. A boa intenção de ampliar o acesso esbarrava na rigidez do valor. A orientação lacaniana segue outro caminho: quando se diz que uma análise custa caro, isso se refere ao singular. O analisante paga dentro de suas possibilidades, e frequentemente o analista lhe pede que pague o que de fato pode pagar, nem mais, nem menos, porque só ele sabe o que esse valor representa em sua vida.


Susano Correia autoanálise
Susano Correia

Isso não transforma o valor em algo arbitrário. Acertar o preço no um a um exige do analista um trabalho clínico rigoroso. Nas entrevistas preliminares, ele escuta a demanda, a posição do sujeito em relação ao seu sofrimento, o lugar que o dinheiro ocupa em sua economia libidinal. Há quem peça desconto como quem pede amor, há quem pague antecipadamente para não dever nada, há quem esqueça de pagar sempre na mesma semana do mês. Tudo isso é material de análise. Quando o pagamento aparece na fala, ele deve ser escutado como qualquer formação do inconsciente, como um sonho, um ato falho ou um sintoma. E o valor combinado não é imutável: pode ser revisto quando a vida do analisante muda ou quando a própria análise o exige. Do lado do analista, há também o reconhecimento de que o valor sustenta uma formação que não termina: a análise pessoal, a supervisão e o estudo teórico, o tripé que, desde Freud, sustenta o exercício da psicanálise


O acerto singular do valor é, portanto, o ponto em que se encontram as duas heranças freudianas que pareciam contraditórias. De um lado, a tese clínica de que o pagamento tem uma função no tratamento e não pode ser dispensado sem consequências. De outro, a tese ética e política de Budapeste, segundo a qual o sofrimento psíquico não é privilégio de classe e a psicanálise não pode ser reservada a quem tem recursos. Ao recusar a tabela fechada, a psicanálise não recusa o pagamento; recusa a padronização. Permite que quem pode contribuir mais o faça, e que quem pode menos também tenha lugar, sem que, em nenhum dos casos, o pagamento perca sua dimensão de ato. Não se trata de caridade, nem de comércio, mas daquilo que Lacan chamou de ética do desejo: a aposta de que cada sujeito pode se implicar naquilo que o faz sofrer e encontrar, a partir disso, uma saída que seja sua.


Por isso, quando alguém pergunta quanto custa uma análise, a resposta mais honesta é que isso será decidido juntos. Não como evasiva, mas como primeiro movimento do trabalho. O valor de uma análise se constrói no encontro, como tudo o mais que nela acontece. E se há algo que a história de Freud e de Lacan ensina, é que o preço de uma análise nunca foi uma barreira de entrada, mas uma forma de levar a sério aquele que chega e aquilo que ele traz.

 
 
 

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